CIGANOS
RESSALTAM IMPORTÂNCIA da CULTURA e LUTAM CONTRA PRECONCEITOS
De acordo com a cigana
Imar Lopes Garcia, o maior problema enfrentado
por seu povo é o preconceito dos gades (como chamam os não ciganos),
pela falta de conhecimento sobre esta cultura. Atualmente, cerca
de 12 milhões deles estão espalhados pelo mundo. Aproximadamente
dois mil vivem na Baixada Santista e 3 milhões em todo o Brasil.
Imar conta que o seu povo sempre sofreu violência e perseguições.
“Na Segunda Guerra Mundial, os nazistas mataram mais ciganos
que judeus. Sempre tivemos que lutar pelo respeito dos gades”.
Os ciganos, segundo ela, têm adaptação fácil às demais culturas.
“Ao contrário da maioria dos gades que nos taxa de vagabundos,
sujos e ladrões, somos cidadãos comuns. Vamos para fila de bancos
e pagamos as nossas contas. Sofremos muito com os filhos, com
o nosso dia-a-dia devido à falta de informação deles em relação
a nossa tradição e cultura”.
“A cultura cigana é muito rica, precisamos acabar com esse preconceito”,
declara Imar, lembrando ainda que muitos confundem a cultura
cigana como sendo uma religião. “Não somos uma religião, somos
um povo e temos o livre arbítrio de escolher a nossa religiosidade
seja ela católica, cristã ou espírita, sem perder, é claro,
os nossos ancestrais”.
A
origem
O povo cigano é de origem indiana, dividido em 3 grandes grupos:
Sinti, Kalón e Rom, sendo que este último é o maior deles, contendo
16 clãs distintos. No Brasil, o primeiro cigano chegou em 1574.
Foi João Torres, do grupo Calons, vindo de Portugal.
Imar explica que há cinco clãs no País. “O dos Kalderach, que
trabalham na arte circense, donos de grande sensibilidade; Matiwaia;
Sintes; Louvares e Calons, que são domadores de cavalos e trabalham
com ferro e cobre, sendo os que mais encontramos no Brasil.
As diferenças entre eles são mínimas no que se refere à cultura
e tradição. Falam uma língua própria: o romani ou romanês, muito
semelhante à antiga língua indiana. Embora haja mais de 60 dialetos
diferentes, todos conseguem se comunicar bem”.
Fé
A padroeira dos ciganos é a Santa Sara Kali, de origem etíope,
festejada em todo o mundo no dia 24 de maio. Contam historiadores
que ela foi ajudada pelos ciganos a desembarcar na França e,
depois de morta, o seu corpo foi guardado pela comunidade. Os
restos mortais dela foram reencontrados em 1447.
Em Santos, Santa Sara recebeu acolhimento na Igreja do Rosário,
única da América Latina a possuir a imagem da padroeira.
Oráculos:
a tradição não pode morrer
O Buena Dicha (leitura da sorte) não é o único ganha pão dos
ciganos. A maioria deles tem uma vida paralela aos oráculos.
“Temos que acompanhar a evolução. Eu sou comerciante, mas não
posso deixar a minha tradição morrer”, diz Imar.
Cartas, bola de cristal, borra de café, punhal, dados, cristais,
ervas, espelho. A intuição é passada de mãe para a filha. “Minha
filha de sete anos sabe ler a mão. O dom já existe nela, mas
não é o momento para começar com essa atividade. A moça, para
estar preparada a lidar com o público, tem que ter tido a primeira
menstruação”.
Já os homens ciganos trabalham com a sensibilidade. “Só em olhar
para você, ele já sabe a sua sorte. Ele não precisa necessariamente
usar o oráculo, como o punhal e os dados”.
Medicina
Os ciganos acreditam na cura das ervas. “Usamos muito gengibre,
mel, hortelã, alecrim, manjericão, arruda, erva doce, camomila,
noz moscada, cravo, canela, anis estrelado, mas não descartamos
os medicamentos convencionais”.
Tradições
e costumes
O dia dos ciganos é comemorado em 8 de abril no mundo inteiro
com uma grande festa. A comida típica é a sarma (a folha do
repolho recheada de lingüiça, bacon, arroz e carne de porco,
com muita pimenta).
Já quando há casamento, são três dias de muita dança e comida.
“Na festa, também são servidos frutas cristalizadas e vinhos”,
diz a cigana matriarca Esmeralda Regina Steger Giangiulio. Ela
explica que, antigamente, os ciganos casavam-se apenas com ciganos.
“Hoje, muita coisa mudou. Já aceitam a união com os não ciganos”.
A dança é alegre e sensual, com o uso das mãos, do balançar
da saia e dos pés descalços. “Na Baixada, temos cinco grupos
de dança: Kumpania Romai, Bach Kalin, Tsara Romai, Caravana
Dourada e Almas Ciganas”, lembra Esmeralda.
Alguns rituais, como o funeral, por exemplo, são guardados a
sete chaves. “É a perda, mas ao mesmo tempo renovação. São ritos
secretos que não podemos divulgar”, diz a cigana Imar, lembrando
que todos possuem três nomes de batismo: “o nome do mundo dos
gades, o do povo cigano; e o terceiro, só o Barô (chefe dos
clãs) e a Matriarca é que sabem”.
Quanto ao vestuário, a sensualidade se mistura com longas saias.
“Usamos saias longas com muita estampa, floridas e muito ouro.
As mulheres compromissadas têm que usar diklop (lenço), em sinal
do compromisso. Ousamos muito nos decotes, mas não podemos mostrar
as pernas”, conta a matriarca.
A cultura cigana é baseada na família, na religiosidade e no
sentimento de liberdade, sempre com respeito aos mais velhos
e prezando a moral. Muitos deles trabalham e têm casa fixa.
“Temos ciganos arquitetos, advogados, artistas e de outras diversas
profissões”.