CIGANOS:
OS INTOCÁVEIS
Compilado
de Conhecer, vol. IX, pág. 2064. Abril Cultural, SP e Folha Enciclopédia,
na web
Compilação
e editoração: Constantino K. Riemma
Cigano quer dizer "intocável". Vem do grego athinganoi,
que se transformou em atsigan e tsigane. E reflete a relativa
incomunicabilidade que existiu entre esse povo e os demais. Na
Espanha, seu nome é gitano, resquício da crença em sua origem
egípcia (gitano vem de egiptano), o que também acontece com a
denominação húngara de Faraonemtség, que quer dizer raça do faraó.
A crença foi disseminada pelos próprios ciganos, que, ao chegarem
à Europa, se apresentavam como nobres egípcios. Mas, na verdade,
os ciganos têm ascendência hindu.
Semelhanças indicam a origem
Ruppa, em prakiti (dialeto hindu da casta Domba), significa prata.
Rup, em romany (língua cigana), quer dizer a mesma coisa.
A coincidência ocorre entre muitas outras palavras das linguas
prakiti e romany. Inclusive Roma, que os ciganos usam para nomear-se,
é muito parecido com Domba, nome da casta hindu.
Não haveria parentesco entre os dois povos?
O costume das danças e do canto, a estatura média, a cor morena,
os cabelos e olhos negros são comuns aos dois povos. Todos esses
indícios respondem de modo afirmativo à interrogação.
Migração
O ramo Domba (que se transformaria nos ciganos) deslocou-se do
centro da Índia para noroeste, no século I a.C. Quatro séculos
depois, migrava novamente, dessa vez para oeste, em direção a
Pérsia. Lá permaneceu até a invasão mongol, verificada no século
XIII.
Então, dividiu-se em dois grupos, dos quais um rumou para a Grécia,
através da Armênia, e o outro para a Síria, a Palestina e o Egito.
Os primeiros acabaram por atravessar o Danúbio, quando os turcos
invadiram a Europa Oriental (século XIV). A partir de então, até
por volta de 1460, difundiram-se pela Hungria, Áustria, Boêmia
(parte da atual Checoslováquia), Hamburgo (atual Alemanha), França
e Suíça
Apesar de se declararem nobres, eram escravizados assim que chegavam
a esses países. Só a partir de 1496 puderam usufruir de alguma
liberdade. O primeiro a favorecê-los foi Vladislau II, rei da
Hungria, que lhes concedeu livre trânsito em território húngaro.
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- (c) University of Washington
Reações e perseguições
Da segunda metade do século XVI em diante, as coisas ficaram piores:
começou a perseguição aos ciganos, primeiro movida pelos camponeses,
depois pelos prefeitos das cidades e até pelos reis. No Ducado
de Milão, em 1663, foi publicado um édito que proibia a entrada
dos ciganos nos domínios milaneses, sob pena de sete anos de cárcere
para os homens e de uma orelha cortada para as mulheres. Maria
Teresa, da Áustria, em 1768 tornou ilegal a permanência de ciganos
em seu país a menos que eles morassem em casas, trajassem à maneira
dos camponeses e trabalhassem em ofícios definidos. Mas nem em
Milão, nem na Áustria, nem no resto da Europa eles mudaram seu
modo de vida.
A América e a Austrália só os receberam na segunda metade do século
XX.
Usos e costumes
Tradicionalmente, os ciganos levam vida nômade, deslocando-se
em grupos de tamanhos diversos, compostos por um conjunto de núcleos
familiares mais ou menos extensos, sob a liderança de um chefe
vitalício escolhido.
A maioria dos ciganos, até poucas décadas atrás, ainda formavam
caravanas puxadas por cavalos; abrigavam-se em tendas, pedreiras
e minas. Em fogueira, ao ar livre, cozinhavam seus frangos, ovos
e vegetais. Seus alimentos, afirmam os comentaristas mais críticos,
eram "quase sempre roubados, já que eles não plantam, nem
criam animais para o abate". "Sua profissão é a mentira",
diz Cervantes. "Mas há uma lei cigana que proíbe roubar...
alguém mais pobre."
Viviam principalmente da criação e comércio de cavalos, do artesanato
em metal, vime e madeira, e das artes divinatórias, como cartomancia
e quiromancia. A música dos ciganos, executada em público apenas
pelos homens, permanece muito popular e é uma atividade rendosa
na Europa Central.
Não
abandonam a quiromancia, embora professem a religião dominante
no país em que se instalam. As adivinhações têm terminologia própria
e algumas vezes utilizam as cartas como acessório. Através dos
ciganos, o baralho (tarot) foi difundido pela Europa. Assimilam
facilmente as artes do lugar onde habitam, em especial a música
e as danças folclóricas. Interpretam-nas com um estilo próprio,
que inclui o uso do violino, seu instrumento por excelência.
Cada grupo tem um chefe natural, escolhido, não-hereditário.
Na família, o membro central é a mãe, que exerce autoridade sobre
os filhos e é dona do patrimônio.
O mesmo sistema se aplica à tribo, que tem uma mãe tribal, a puri
dai, guardiã do código moral. Os infratores são julgados por um
júri de "condes". E, nos casos mais graves, a pena é
o banimento da tribo.
Alguns estudos dão nuances diferentes da organização social dos
ciganos, possivelmente em razão da diversidade dos grupos estudados.
Quanto à posição das mulheres dizem que "segundo os costumes
ciganos, as mulheres devem subserviência aos homens, e as mulheres
casadas sempre usam um lenço para cobrir a cabeça"
A
questão política
Várias foram as tentativas de agrupar os ciganos sob o poder de
um só governante. Uma delas foi o aparecimento da dinastia Kwick,
inaugurada por Gregory Kwick, cigano polonês que, por volta de
1883, se declarou "rei dos ciganos". Durante seu reinado,
realizou-se, em 1909, o único recenseamento cigano de que se tem
notícia; o censo informou que havia então na Europa 600 mil ciganos.
Gregory abdicou em 1930 em favor de seu filho Michael II, que,
após sete anos de governo, foi sucedido por Janusz I. Este proclamou-se
administrador dos ciganos da Hungria, Espanha, Alemanha, Bulgária,
Iugoslávia e Polônia. Planejou ir a Genebra reivindicar um país
para seu povo, mas o projeto foi vetado por uma assembléia cigana.
Seu "reinado" durou apenas um ano. Sucedeu-o Mathew
Kwick, do qual não se tem maiores notícias.
Em 1933, foi cogitada, sem êxito, a possibilidade de agrupar todos
os ciganos do mundo (aproximadamente 2 milhões) nas ilhas da Polinésia,
com subvenção da Liga das Nações. A idéia não se concretizou.
Pouco depois, eclodiu a II Guerra Mundial (1939) e cerca de 20
mil ciganos foram exterminados nos campos de concentração.
Os regimes comunistas da Europa Oriental do pós-guerra forçaram
os ciganos a se fixarem em cidades industriais e residirem em
grandes edifícios de apartamentos, desmembrando os grupos familiares
extensos e obrigando-os a trabalhar em fábricas, fazendo-os abandonar
o modo de vida tradicional.
Os
governos pós-comunistas mais recentes permitiram aos ciganos que
se organizassem politicamente para encontrar os meios de reivindicar
seus direitos como minoria étnica.
Formaram-se associações e grupos de pressão, como é o caso dos
phralip (em romani, "irmandade") da Hungria, para lutar
por escolas especiais e adoção de livros pedagógicos na língua
romani. A grande maioria do povo cigano, ainda enfrenta discriminação
social, está sujeita a más condições habitacionais, desemprego
e expectativa de vida mais baixa que a de seus compatriotas.
Hoje,
eles estão espalhados em quase todo o mundo. E alguns relatos
dão conta da inevitável mudança de costumes. "Cigano dos
Estados Unidos não viaja mais de carroça: usa trailer motorizado;
nem prepara mais sua refeição: come enlatados."
Na União Soviética e na Iugoslávia, são publicados jornais em
língua cigana. A Sociedade Cigana Lore, na Inglaterra, preocupa-se
em recolher todas as informações possíveis sobre esse povo. A
biblioteca da Universidade de Liverpool, também na Inglaterra,
tem em seu acervo um conjunto de livros sobre os ciganos. Assim,
esse povo se torna cada vez menos estranho aos demais.
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