Projeto de inclusão social beneficia
terceira idade
Um levantamento feito entre os anos de 2003 e 2006, pelo Centro
de Cultura Cigana de Juiz de Fora, contabilizou 8.740 ciganos na
cidade. Na Zona da Mata Mineira são 46.679 e em todo o estado,
o número chega a 432.108. O Brasil possui a segunda maior
comunidade cigana do mundo, com cerca de 1,6 milhão, ficando
atrás somente da Romênia. Para o presidente do Centro
de Cultura Cigana, Zarco Fernandes, esse levantamento em Minas é
mais que uma conquista.
A contagem é inédita e, para Zarco, ela mostra que
todas as estimativas do poder público a respeito do número
de ciganos existentes no Brasil não são corretas.
"A estimativa mais atual é de que são cerca de
500 mil no país", diz e se questiona. "Então
todos estão em Minas?".
Segundo ele, os governantes alegam ser difícil localizar
a população por se tratar de uma raça nômade.
A desculpa do poder público serviu de estímulo para
a realização do levantamento e também foi motivo
de revolta. "Contabilizamos para mostrar que é possível",
diz. Ele se refere também ao desconhecimento, por parte do
governo e da população em geral, sobre as mudanças
de hábitos dos ciganos.
"Muitas pessoas falam que os ciganos estão sumindo.
Mas não é isso. A verdade é que estamos mudando
o jeito de viver e procurando melhores condições de
vida." Ele conta que há sete anos era raro ver um acampamento
cigano na cidade e, de lá para cá, se tornou ainda
mais. "Há três anos não se vê um
acampamento em Juiz de Fora."
Os ciganos estão passando de nômades a sedentários.
Atualmente, somente 40% vive de cidade em cidade. Essa mudança
se deu em função do crescimento urbano, que eliminou
os espaços para acampamento. E a tendência é
que, a cada ano, o número de nômades continue caindo.
Uma amostra dessa mudança de hábito é o fato
de os ciganos não exercerem mais o principal ofício
exercido por eles: a leitura de mãos. Atualmente, somente
11% deles vivem disso. A maior parte é comerciante (30%).
Eles são seguidos dos profissionais liberais, com 22%, dos
negociantes, com 16%, dos professores, com 10%. Os artistas são
4%, os artesãos 2% e 5% exerce outras atividades.
Para Zarco, outro fator que contribui para a mudança na forma
de viver dessa raça são as próprias conquistas
relacionadas à inclusão social. Uma delas, considerada
positiva é a conquista do direito ao registro civil, através
de decreto assinado pelo presidente Lula em 2007, que amplia o acesso
à documentação básica.
Vinte e seis por cento dos ciganos não têm o documento.
"E não é possível haver política
pública e de inclusão social para quem não
existe, não sabem quantos são e nem onde estão",
diz ele. A dificuldade em tirar a certidão de nascimento
se dava em função da lei do cartório ser mais
forte que a lei nacional. O cigano explica que os cartórios
exigiam domicílio fixo e um registro de nascido vivo na maternidade.
"Nós nascemos e vivemos em barracas. É a nossa
tradição."
A falta do registro é motivo de impedimento aos estudos,
à atenção a saúde e ao exercício
da cidadania. Segundo Zarco, em 2006, 230 crianças ciganas
estavam fora da escola em Juiz de Fora. "O maior índice
de analfabetismo no Brasil está entre os ciganos", ressalta.
A crítica de Zarco recai sobre o sistema de levantamento
de informações sobre a população brasileira.
Ele critica o fato de não haver a opção "cigano"
no censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE). "Temos que nos declarar como outra raça, porque
não há opção no formulário do
IBGE."
Apesar de conquistas importantes para a raça, como a comemoração
do Dia Nacional do Cigano, em 24 de maio, Zarco ainda diz que elas
representam apenas 1% de tudo o que é necessário.
Ele diz que tudo foi um avanço em anos-luz, mas, levando
em consideração o cansaço, a sensação
é de que tudo demorou uma eternidade. "Ainda não
conquistamos a cidadania de fato. Esbarramos na burocracia e na
má vontade dos governantes."
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